Na quinta-feira da Semana da Leitura, tivemos o prazer de receber na nossa escola o Sr. João da Murtosa. Muitos de nós tínhamos ouvido falar dele, mas não o conhecíamos. Então, lançámos-lhe o desafio de vir conversar connosco sobre «Retalhos da vida de um pescador» e o Sr. João aceitou com muito agrado. De entre os alunos que conversaram com ele, estavam duas netas e um bisneto, que se mostraram orgulhosos pela vinda do avô e recitaram excertos de poesia com a temática do mar, como o «Mar Português» da Mensagem de Fernando Pessoa:
«Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.»
Divulgamos aqui alguns fragmentos da conversa.
Sr. João da Murtosa, de seu verdadeiro nome João Carlos da Silva, veio da Murtosa até à Praia da Vagueira, de bicicleta, aos 18 anos de idade. Gostou do local e aí ficou até aos dias de hoje.
À pergunta «qual foi o seu maior medo em alto mar», o Sr. João respondeu que «ainda agora tem medo» e não é só do mar, é também da vida. Segundo ele, todos os dias enfrentamos obstáculos. «Temos de enfrentar a vida, ter coragem para enfrentar qualquer obstáculo que nos apareça.»
Começou a faina da pesca com 25 anos. No entanto, até aí, trabalhou no moliço, nos saleiros e nas bateiras. Por duas vezes, o barco onde seguia com outros pescadores afundou. Mas a luta pela sobrevivência foi grande e conseguiram salvar-se, com a ajuda de outros barcos que por aí passavam. Quando um pescador é obrigado a enfrentar um obstáculo, neste caso um naufrágio, ele enfrenta-o sem medo. O Sr. João tem medo de enfrentar a vida, mas numa «aflição», ganha coragem para se salvar.
Porque não queria que «os filhos passassem fome», o Sr. decidiu trabalhar por conta própria e deitou muitas vezes lágrimas de sofrimento. Primeiro, pescou na ria e depois passou a pescar no mar. Na altura, o material de que dispunha não era o melhor – a bateira era pequena e os pescadores puxavam a rede com uma corda amarrada à cintura. Mais tarde, foram introduzidos os bois que ajudavam os pescadores a puxar a rede com o peixe até à praia. Mas, apesar da técnica ter melhorado, o barco afundou várias vezes e os pescadores viram a morte à frente. Nunca desistiram, a coragem falou sempre mais alto, conseguindo ultrapassar o medo.
Dirigindo-se aos alunos, o Sr. João terminou, aconselhando-os «a não terem medo, mas sim a enfrentarem a vida».
Obrigada, Sr. João da Murtosa, pela lição de vida que nos deu.














