terça-feira, 7 de julho de 2015

Poema: RELEVO (Porto Santo)

Poema escrito para um amigo, há 13 anos. 
Podia ser melhorado, mas, resolvi deixá -lo tal como estava, “sem bulir nele”(Jorge Amado, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, prólogo), descurando talvez a qualidade literária em prol da espontaneidade e sensibilidade feminina.
Como pano de fundo, a ilha de Porto Santo, lugar escolhido pela sua pureza, genuinidade e pelo sentido deste enquadramento quando o escrevi.
Os cenários mudam, muda uma ou outra personagem, mas as nossas histórias de vida, por vezes, são cíclicas.




Relevo (Porto Santo)

Vislumbro a silhueta dos teus trilhos
e na esperança de um dia os percorrer
antecipo veredas e levadas,
nuvens de algodão ou carregadas.
Sinto aqui o cheiro a maresia
e até dos transeuntes da calçada
julgo ouvir um familiar “Olá, bom dia!"

No teu santo porto, se quiseres
vou inebriar-me dos perfumes que me deres,
pois procuro aromas de encanto.
Nessa praia, tão nua de arvoredo,
procuro entre ameias, muito a medo,
piratas e corsários e tesouros
e ao não encontrar o meu no meio,
esconderei na areia fina o meu enleio.

Então, despojada, num barco meio tosco,
regresso a ti p'ra te contar do meu desgosto,
mas cruzando trilhos que me embaraçam o andar,
envolto em brumas volumosas
vais certamente erguer-te nesse altar,
levantar de novo o teu olhar
e eu, que julgava seres tão fácil de alcançar,
mais não terei que mais respostas duvidosas.

Apresso a descida por gargantas inseguras
e ao escorregar pelas vertentes da montanha
vou-te gritando que ouças enquanto dura
o crepitar deste meu fogo nas entranhas.
E se, estranho ao apelo, ainda assim,
deixares à deriva o meu veleiro
sequioso de águas sempre quentes,
sedento de transparências por inteiro,
não me forces a vida ao desencanto…
Foge a essa pena de me “desilhares “a mim,
pedindo à ilha vizinha que, enfim…
me arranje no seu porto um cais sem fim,
ainda que não seja em tudo santo.

Professora Cristina Grilo, 2001

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