quinta-feira, 18 de junho de 2015

JOSÉ SARAMAGO, NOS 5 ANOS DA MORTE DO NOBEL PORTUGUÊS

José Saramago tinha uma definição muito simples da morte, para ele morrer era não estar. 


Com Pilar (sua mulher e musa), em Lanzarote

Hoje completam-se 5 anos desde que lhe dissemos adeus. Mas continuamos a senti-lo tão próximo que, para nós, José Saramago ainda está, porque a sua obra continua a ser lida e reinterpretada.
Uma foto de João Francisco Vilhena, onde se pode ver duas mãos abertas cheias de areia escura de Lanzarote, veio servir de mote à evocação de José Saramago.



Foi em Lanzarote, esta ilha do arquipélago da Canárias, que residiu nos últimos 18 anos da sua vida. Aqui, quase reencontrou a Azinhaga da sua infância. O Prémio Nobel português gostava de fazer caminhadas pisando a cinza dos vulcões e no jardim plantou oliveiras. Todas as tardes saía para dar um passeio. Gostava de o fazer porque ia pensando à medida que caminhava.
Costumava dizer, a propósito de Lanzarote: "Lanzarote sin ser mi tierra, es tierra mia". 
E, na verdade, foi em Lanzarote que foi feliz, que escreve e publica todos "Cadernos de Lanzarote", "O Ensaio sobre a Cegueira", "Todos os Nomes", "O Conto da Ilha Desconhecida", "A Maior Flor do Mundo", "O Homem Duplicado", "O Ensaio sobre a Lucidez", "Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido", "As Intermitências da Morte", "As Pequenas Memórias", "A Viagem do Elefante" ...além de receber aqui, a notícia de que tinha ganho o Prémio Nobel da Literatura.


E a esse respeito fica aqui uma parte do discurso pronunciado a 7 de dezembro de 1998, na Academia Sueca.

"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animalzinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algunas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira." Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para todas as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava."

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