terça-feira, 14 de abril de 2015

HUM! JÁ CHEIRA A ABRIL!

E a propósito de abril ...

Jorge de Sena
foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário, que viveu atormentado com a banalidade e a pequenez do quotidiano no Portugal de Salazar, bem assim como com a mediocridade, a mesquinhez e a intriga dos meios literários, a opressão política e a censura literária. 

Da feliz utopia de uma nação livre, à constatação  de que muito trabalho restava por fazer, a poesia de Sena conclui: 

"Quem te amar, ó liberdade, tem de amar com paciência"





Cantiga de Abril

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste país,
a conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz do cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde e vermelha.

Esse ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro. 

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.


Obras de Jorge de Sena 
"40 anos de servidão" 
Edições 70 
1989

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