quarta-feira, 8 de abril de 2015

D. Pedro I de Portugal, o "Justiceiro"

D. Pedro I nasceu em Coimbra a 8 de abril de 1320 e foi o oitavo rei de Portugal. Recebeu os cognomes de "O Justiceiro" e "O Crú ou Cruel", pela energia posta em vingar a morte da Inês de Castro.
O romance de Pedro, futuro rei de Portugal, com a dama de companhia Inês de Castro, marcou a história e a cultura portuguesas. Foi um amor proibido, vivido em atmosfera carregada de disputas de poder, a maior parte da narrativa baseia-se em registos históricos. Só alguns detalhes pertencem ao campo da lenda, fruto da imaginação popular e do talento de artistas.


Há muitos séculos atrás, bem antes dos Descobrimentos, governava El-rei D. Afonso IV que era casado com D. Beatriz de Castela. No dia 8 de abril de 1320 acabara de nascer o membro mais recente da coroa portuguesa nas Cortes de Coimbra, o príncipe D. Pedro. Este futuro rei teve muitas dificuldades durante o seu reinado, nomeadamente por causa de pestes e maus anos agrícolas. Viveu também muitas guerras na conquista de África.

"O Triunfo da Morte" de Pieter Brueghel (1526 - 1569)
Retratando os horrores da peste Negra

Por volta de 1328, aos 8 anos de idade, a Princesa D. Branca de Castela foi-lhe prometida em casamento. Porém o casamento acabou por não ser realizado porque a noiva tinha uma deficiência física e mental. Então foi-lhe prometida a Infanta D. Constança, filha de D. João Manuel, Infante de Castela.

D. Constança

A noiva veio para Portugal em 1340, acompanhada de uma aia, que por sua vez era sua parente, fidalga de origem bastarda, chamada Inês de Castro, filha do fidalgo castelhano Pedro Fernandez de Castro.

D. Inês de Castro e D. Pedro

Inês de Castro era uma mulher lindíssima, uma jovem de grande beleza, descrita como loura e elegante. por esses atributos, era chamada de "colo de garça". 
Em 1345, Constança morreu no parto, e, nessa altura o príncipe viu-se liberto das amarras do casamento de conveniência.
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MORTE DE D. CONSTANÇA

13 de Novembro de 1345

Hoje, logo após o nascimento do nosso filho, o infante Fernando, D. Constança, a minha leal companheira e mãe extremosa, expirou. Nem tempo teve de aconchegar nos seus braços o filho que tanto desejara para consolo do seu infortúnio.

Esta morte, que a todos consternou, traz-me (posso, enfim, confessá-lo!) um enorme alívio para esta minha alma já cansada de esconder o avassalador amor que me une à minha amada Inês e termina aquele infindável enredo de enganos em que a obriguei a viver todos estes anos.

Que a sua alma descanse em paz nos braços do Senhor, que eu me entrego, finalmente, livre nos braços de Inês…

Pedro
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D. Pedro apaixonou-se loucamente por D. Inês, esquecendo as conveniências e as reprovações. Felizmente o amor foi-lhe correspondido e assim passou a ser a alma gémea de D. Pedro. Por ela, D. Pedro não ligou às convenções da Corte e desafiou tudo e todos. A corte considerava aquele romance como sendo imoral, devido aos problemas morais e religiosos que esta trazia. E ainda havia o medo que a influência da família dos Castros fosse muita, na Coroa portuguesa.
Em 1347, D. Inês deu à luz o primeiro de quatro filhos do infante. Mas o povo comentava e condenava o adultério, enquanto a peste negra chegava à região.

Indiferentes a tudo, D. Pedro e Inês de Castro viviam despreocupadamente o seu amor, nas margens do rio Mondego.
Recordemos, a propósito disso, Camões:

"Estavas, linda Inês, posta em sossego, 
De teus anos colhendo doce fruto, 
Naquele engano da alma, ledo e cego, 
Que a Fortuna não deixa durar muito, 
Nos saüdosos campos do Mondego, 
De teus fermosos olhos nunca enxuto, 
Aos montes ensinando e às ervinhas 
O nome que no peito escrito tinhas. 
Do teu Príncipe ali te respondiam 
As lembranças que na alma lhe moravam, 
Que sempre ante seus olhos te traziam, 
Quando dos teus fermosos se apartavam; 
De noite, em doces sonhos que mentiam, 
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via 
Eram tudo memórias de alegria"

Canto III,  estrofes 120 e 121 de "Os Lusíadas" 
de Luíz Vaz de Camões

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Consta que ele a visitava, a alguns passos do seu palácio, na Fonte dos Amores. O local ficava ao abrigo do sol e possuía uma parede coberta de hera, aberta em dois arcos, propícia para o romance e troca de confidências.

Pormenor da "Fonte dos Amores" em Coimbra

Porém, por causa deste romance, chegavam várias intrigas ao rei D. Afonso IV, o que fizeram o monarca agir rapidamente. Apesar de tudo isto, ele compreendia aquele romance, mas teve de tomar medidas drásticas.
Foi feita uma reunião no seu conselho em Montemor-o-Velho, em que D. Pedro não esteve presente para se defender. Nesta reunião foi decidida a execução de Inês de Castro. Deste modo foi decidido o destino de Inês de Castro, sem levarem em conta o facto de que ela era mãe de 4 filhos de D. Pedro.

Morte de Inês 
Óleo sobre tela de Columbano Bordalo Pinheiro
Museu Militar de Lisboa

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Quando os terríveis verdugos trouxeram Inês e os seus filhos perante o rei, e depois desta ouvir a sentença, ergueu os olhos ao céu e disse:

"Até mesmo as feras, cruéis de nascença, e as aves de rapina já demonstraram piedade com as crianças pequenas. O senhor, que tem o rosto e o coração humanos, deveria ao menos compadecer-se destas criancinhas, seus netos, já que não se comove com a morte de uma mulher fraca e sem força, condenada somente por ter entregue o coração a quem soube conquistá-lo. E se o senhor sabe espalhar a morte com fogo e ferro, vencendo a resistência dos mouros, deve saber também dar a vida, com clemência, a quem nenhum crime cometeu para perdê-la. Mas se devo ser punida, mesmo inocente, mande-me para o exílio perpétuo e mísero na gelada Cítia ou na ardente Líbia onde eu viva eternamente em lágrimas. Ponha-me entre os leões e tigres, onde só exista crueldade. E verei se neles posso achar a piedade que não achei entre corações humanos. E lá, com o amor e o pensamento naquele por quem fui condenada a morrer, criarei os seus filhos, que o senhor acaba de ver, e que serão o consolo de sua triste mãe."
Simplificação das estrofes 126, 127, 128 e 129 do Canto III de "Os Lusíadas" de Luíz de Camões
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Assim, na manhã de 7 de janeiro de 1355, os executores aproveitaram a ausência de D. Pedro, que estava a realizar as suas habituais caçadas, entraram no Paço e ali mesmo mataram D. Inês, com apenas 30 anos de idade.
Devastado com a perda da sua amada, D. Pedro chegou a declarar guerra a o seu pai.
Dois anos depois, com a morte de D. Afonso IV e a subida ao trono de D. Pedro, aos 37 anos, mandou capturar os assassinos de D. Inês. Conseguiu apanhar Álvaro Gonçalves e Pêro Coelho, mas Diogo Pacheco, disfarçado de mendigo, lá conseguiu escapar. Estas mortes, foram, segundo a tradição, muito cruéis: a um foi arrancado o coração pelo peito e a outro pelas costas.
Conta também a tradição que D. Pedro teria mandado desenterrar o corpo da amada, coroando D. Inês como rainha de Portugal, e obrigando os nobres a procederem à cerimónia do beija-mão real ao cadáver, sob pena de morte.
Em abril de 1361, o corpo de D. Inês foi transferido solenemente do Convento de Coimbra para o Mosteiro Real de Alcobaça, onde eram enterrados os monarcas portugueses.

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PRÉSTITO DE INÊS

"El rei D. Pedro de Portugal faz saber que, a dois de Abril do ano mil trezentos e sessenta e um de Nosso Senhor Jesus Cristo, será feita a trasladação da mui nobre Senhora D. Inês, de Coimbra, do Mosteiro de Santa Clara, para o túmulo de Alcobaça.
Ordena que toda a população de Coimbra e arredores esteja presente neste solene evento, onde se ajunte, em majestoso e pesaroso cortejo, cinco mil círios e archotes acesos. 
Deverão também integrar este préstito mil carpideiras, que entoem cânticos plangentes e lancem gritos lancinantes; mil Senhores e Senhoras, a cavalgar corcéis; mil membros do Clero, em ininterrupta oração pela alma daquela gentil Senhora; mil burgueses, com oferendas majestosas e dignas de uma Rainha ilustre; mil humildes homens do povo de cabelos rapados e sem barba na expressão pública de luto.
Para transporte do ataúde fúnebre da Senhora Dona Inês, doze escudeiros vestidos de estamenha crua.
Na frente da procissão, um Franciscano que suporte uma enorme cruz de Cristo" 

El-Rei D. Pedro
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Eis um documento da época onde se lê:
“Dom Pedro mandou que fizessem para ela um mausoléu de pedra branca, inteira e sutilmente trabalhado, representando, sobre a tampa, sua cabeça coroada como se ela houvesse sido rainha; e foi esse mausoléu que ele mandou colocar em Alcobaça [...]. O corpo viajou em um ótimo cortejo para a época, desses em que há grandes cavalos montados por grandes cavaleiros, damas e donzelas e muita gente do clero; e ao longo do caminho havia mais de mil homens com círios nas mãos, dispostos de maneira que seu corpo seguiu durante todo o caminho entre as velas acesas”

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