terça-feira, 17 de março de 2015

A propósito de poesia, FLORBELA ESPANCA

A propósito de Florbela Espanca, diziam António José Saraiva e Óscar Lopes: "Florbela Espanca é uma das mais notáveis personalidades literárias isoladas".
Na verdade, a poética e a prosa de Florbela dificilmente se enquadram numa única corrente literária, ou seja uma corrente dominante no seu tempo ou anterior. De facto a poetisa soube construir uma linguagem muito própria, ao revelar, no espaço da poesia, sentimentos e desejos próprios, anseios e aspirações muito suas, conquistando na literatura um espaço de libertação de instintos sensuais, sem precedentes até então; sobretudo, revelou, através da linguagem poética o seu ser e a sua intimidade.
No entanto, são evidentes em Florbela os traços e as influências de diversas correntes literárias que atravessaram o século XIX, apesar de acusar igualmente proximidades a estéticas do século XX. Florbela admirava Júlio Dantas, Guerra Junqueiro, Antero de Figueiredo e, sobretudo, António Nobre.



"Digo o que penso e, muito simplesmente enuncio factos pois que, apesar de poetisa, ligo bem maior importância aos factos do que às palavras por bonitas que sejam. Palavras são como as cantigas: leva-as o vento."

                                                                                                                  Correspondência (1920)
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Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendos
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)

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