domingo, 15 de março de 2015

A propósito de poesia, ANTÓNIO LOBO ANTUNES.

Aludiu numa entrevista, que as principais influências nos seus livros foram o cinema norte-americano, o cinema italiano, os andamentos da música, e também alguns escritores que o encantaram na adolescência, como sejam: Céline, Hemingway, Sartre, Camus, Malraux, Júlio Verne e Emilio Salgari; mais tarde foi a descoberta de Simenon e posteriormente a descoberta dos russos com Tolstoi e Tchekov. 


"Não tenho pensamentos abstractos quando estou a escrever. Estou tão preocupado a fazer o livro que nem sequer me pergunto o que é que isto quer dizer, nem sequer pergunto o que estou a escrever. Às vezes nem sequer sabemos se estamos a acertar no papel. Só quando se começa a trabalhar é que se vê se acertámos ou não."
                                                                                Diário de Notícias (2003)

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Todos Os Homens São Maricas Quando Estão Com Gripe


Pachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher -
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer
mede-me a febre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes Lurdes
não vales nada
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de tranças
choros de coruja
risos de grilo
ai Lurdes Lurdes
que foi aquilo
não é a chuva
no meu-postigo
ai Lurdes Lurdes
fica comigo
não é o-vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes Lurdes
nem dás por nada
faz-me tisanas
e pão de ló
não te levantes
que fico só
aqui sozinho
a apodrecer
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer.

2 comentários:

Prof. C. Oliveira disse...

E por falar nisso...


Diz Álvaro de Campos:

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.


(14-3-1931)

Poesias de Álvaro de Campos.
Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 48.
1ª publ. in Presença, 2ª série, nº1. Coimbra: Nov. 1939.

Rui Lopes disse...

Obrigado colega pelo excelente contributo. Bem haja