terça-feira, 17 de março de 2015

A propósito de poesia, ÁLVARO DE CAMPOS.


Em jeito de comentário, e como contributo à temática do poema de António Lobo Antunes, recebemos da Prof. C. Oliveira, uma poesia de Álvaro de Campos sobre a gripe, que diz:


Tenho 

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.

14-3-1931
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
- 48.
1ª publ. in Presença, 2ª série, nº1. Coimbra: Nov. 1939.
Não é por acaso que Álvaro de Campos é o mais mal disposto dos heterónimos de Pessoa; é o mais modernista de todos eles, o mais preocupado e interrogativo, o mais irrequieto e barulhento. Dilacerado de corpo e alma, infinitamente queixoso, constantemente reclamando por enfermeiras e remédios, Campos é sem dúvida o mais desinquieto, o mais doente dos poetas modernistas.

Sem comentários: