sexta-feira, 20 de março de 2015

A PRIMAVERA começa hoje às 22h45.

Nada melhor que esperar pela Primavera, lendo Alberto Caeiro.

"Soir de Printemps" de Gastin-Mozol

Quando Vier a Primavera
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


"La printemps" de Émile Vernon

Mas, muitos outros poetas escreveram sobre a Primavera. Veja-se, a propósito, Guerra Junqueiro.

A Primavera
Namorou-se uma princesa
Dum pajem loiro e gentil;
Chama-se ela - Natureza,
Chama-se o pajem - Abril.
A Primavera opulenta,
Rica de cantos e cores,
Palpita, anseia, rebenta
Em cataclismos de flores.
(...)
Tudo ri e brilha e canta
Neste divino esplendor:
O orvalho, o néctar da planta
O aroma, a língua da flor.
Enroscam-se aos troncos nus
As verdes cobras da hera.
Radiosos vinhos de luz
Cintilam pela atmosfera.
Entre os loureiros das matas,
Que crescem para os heróis,
Dá o luar serenatas
Com bandas de rouxinóis.
É a terra um paraíso,
E o céu profundo lampeja
Com o inefável sorriso
Da noiva ao sair da igreja



Vivaldi - Primavera (As quatro estações)

E na música, António Vivaldi faz a diferença com concertos para violino e orquestra "As quatro estações". Ao tocar "A Primavera", Vivaldi descreve o chegar desta estação com uma melodia doce, remetendo ao canto dos pássaros. Mas também há a tempestade, onde os raios e trovões cobrem o ar num manto negro. Apesar disto, sem se importar, ficam os passarinhos, retornando ao seu encanto sonoro. Aparecem gaitas camponesas, dançam as ninfas e os pastores enquanto a primavera surge a brilhar.

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