terça-feira, 31 de março de 2015

31 de março de 1821 - Extinção da Inquisição em Portugal

D. João III negociou vários anos a instituição do Tribunal do Santo Ofício em Portugal. Em 1532 viu os seus intentos satisfeitos pelo papa Clemente VII que lho concedeu pela bula Cum ad nihil magis, de 17 de Dezembro, na qual nomeava inquisidor D. Fr. Diogo da Silva. A reacção e protestos dos cristãos novos fizeram com que o mesmo pontífice revogasse aquela bula pela Sempiterno Regi, de 7 de Abril de 1533. (...) D. João III travou em Roma uma luta cara, a que não foram alheias as intrigas e subornos, conseguindo que o papa Paulo III instituísse em Portugal o Tribunal do Santo Ofício pela bula Cum ad nihil magis, de 23 de Maio de 1536.
Só em 1821 é que Francisco Simões Margiochi, põe termo a este "calvário", com a apresentação às Cortes da leitura do documento abaixo.


O projecto de abolição da Inquisição esteve a cargo do matemático e professor Francisco Simões Margiochi (1774-1838), que expôs assim o assunto (excerto do que disse nas cortes, na sessão de 24 de Março de 1821):
"Era licito a toda pessoa, por mais perversa que fosse, ser denunciante, ou accusador. Toda a pessoa por mais virtuosa que fosse, era subjeita a estas accusações: nem o sexo eximia, nem a idade. As accusações erão recebidas apezar da incoherencia das testemunhas: nada importava que huma testemunha allegasse hum facto acontecido em Coimbra, e outra o mesmo facto acontecido em Lisboa, não se achava incoherencia. Nada importava que se asseverasse que o facto tinha passado hum anno, ou dez annos depois. Parece que se não queria senão ter victimas para atormentar. Admittida a accusação, procedia-se logo á prisão desculpadas, ou dos reos. Hia-se a sua casa; todas as Justiças, toda a força armada era obrigada a executar as ordens da Inquisição: era o preso transportado para as prisões da Inquisição, toda a sua familia era posta fora da casa, a casa ficava trancada, e a familia abandonada á sua sorte. Transportado o preso ás prisões da Inquisição, entrada em huma habitação muito pequena inteiramente escurecida, em hum espaço muitas vezes menor do que aquelle em que se põe os mortos. Alli passava mezes, e annos sem ser perguntado, sem chegar ás mesas dos inquisidores. Quando era perguntado não da para se oppôr á sua accusação, era para addivinhar quem tinhão sido os seus accusadores. Se depois de denunciar por accusadores seus filhos, ou seus pays, seus collegas, seus parentes, todos os seus amigos, seus conhecidos, todas as pessoas do mundo de quem sabia os nomes, assim mesmo não acertava com seus accusadores, em submettido aos tormentos. Estes tormentos erão polés, cavalletes, fenos em braza, e outras cousas que a Arte descreve, e sabe imaginar. Assistião a estes tormentos os Deputados da Inquisição, assistião Facultativos para ver se os desmayos que os atormentados mostravão, erão verdadeiros, ou fingidos: quando lhes parecião verdadeiros davão-lhes confortos para torna-los ávida, por medo de que escapassem as victimas. Quando de pois destes tormentos elles não acertavão senão com parte de seus accusadores, erão classificados de diminutos. Quando acertavão com todos seus accusadores, erão simplesmente condemnados (simplesmente) a gales, e a degredos para presídios. Quando acertavão com parte só, já disse, que erão olhados como diminutos, e sómente erão condemnados a garrote, e depois a serem queimados, e depois a serem suas cinzas deitadas ao Tejo, ou aos males. Ora quando absolutamente não addivinha vão seus accusadores, erão julgados impenitentes, e erão queimados vivos, e suas cinzas espalhadas como disse. Depois destas Sentenças proferidas, entregavão os seus processos ás Relações, aos Tribunaes Civis, e estes, sem exame nenhum, as manda vão executar. A' execução disto chamavão ao Auto da Fé. "
... / ...


DIÁRIO DAS CORTES GERAES E EXTRAORDINARIAS DA NAÇÃO PORTUGUEZA.
SESSÃO DO DIA 31 DE MARÇO DE 1821(O documento é reproduzido com a grafia da época)

DECRETO.
As Cortes Geraes, Extraordinarias, e Constituintes da Nação Portugueza, Considerando que a existencia do Tribunal da Inquisição he incompativel com os principios adoptados nas Bases da Constituição, Decretão o seguinte:
1.° O Concelho Geral ao Santo Officio, as Inquisições, os Juisos do Fisco, e todas as suas dependencias, ficão abolidos no Reyno de Portugal. O conhecimento dos Processos pendentes, e que de futuro se formarem sobre causas espirituaes, e meramente ecclesiasticas, he restituido á Juriadicção Episcopal. O de outras quaesquer causas de que conhecião o referido Tribunal, e Inquisições, fica pertencendo aos Ministros Seculares, como o de outros crimes ordinarios, para serem decididos na conformidade das Leys existentes.
2.° Todos os Regimentos, Leys, e Ordens relativas á existencia do referido Tribunal, e Inquisições, ficão revogadas, e de nenhum effeito.
3.° Os bens, e rendimentos, que pertencião aos dictos estabelecimentos, de qualquer natureza que sejão, e por qualquer titulo que fossem adquiridos, sejão provisoriamente administrados pelo Thesouro Nacional, assim como os outras rendimentos publicos.
4.º Todos os Livros, e tudo Manuscriptos, Processos findos e tudo o mais que existir nos Cartorios do mencionado Tribunal, e Inquisções, serão remettidos á Bibliotheca Publica de Lisboa, para serem conservados em cautela na Repartição dos Manuscriptos, e inventariados.
5.° Por outro Decreto, é depois de tomadas as necessarias informações, serão designados os ordenados que ficarão percebendo os Empregados que servirão no dicto Tribunal, e Inquisições.
A Regencia do Reyno assim o lenha entendido, e faça executar. 
Paço das Cortes 31 de Março de 1821. –Hermano José Braancamp do Sobral, Presidente – Agostinho José Freire, Deputado Secretario – João Baptista Felgueiras, Deputado Secretario.

segunda-feira, 30 de março de 2015

A 30 de março de 1853, nasce VAN GOGH

Vincent Willem VAN GOGH, foi um pintor holandês, considerado um dos maiores pós impressionistas de todos os tempos.

"Auto retrato com chapéu de palha"
Instituto de artes de Detroit

Chegou a morar em França e na Bélgica, e em vida vendeu apenas um quadro intitulado " O Vinhedo Vermelho", ou seja, o reconhecimento ocorreu somente após a sua morte. Produzida em 1888, a tela foi comprada por Anna Boch, numa exposição realizada em Bruxelas em 1890.

"Vinhedo vermelho" 
Museu Estatal Pushkin de Belas Artes em Moscovo

Anna era irmã de Eugene Boch, artista belga que havia sido tema de um retrato de Vincent, alguns anos antes.

"Eugene Boch" - Museu d´Orsay em Paris

Van Gogh era filho de um pastor da Igreja Calvinista. Teve ao todo seis irmãos, três irmãos e três irmãs. Mas foi com o irmão Theo (Theodorus) que evidenciou a maior amizade, pois foi este irmão quem o manteve financeiramente. Há relatos de um tempo em que, com poucos recursos, o irmão lhe envia materiais de pintura pois prefere estes a comida.
A vida amorosa do pintor parece não ter sido bem sucedida. Sabe-se que pediu uma prima em casamento e recebeu de resposta um "nunca". Ter-se-ia também interessado pela filha de um vizinho e esta acabou por tentar suicídio, assim que soube que a família não consentia o casamento. Também há relatos que teve uma amante prostituta que se envolveu com o seu amigo Paul Gauguin e que numa discussão mais acalorada terá atacado Gauguin com uma navalha. Isto fez com que se afastassem um do outro.
Após esta rutura com Paul Gauguin, Van Gogh é diagnosticado com uma depressão. Nesta época era habitual os artistas locais ingerirem absinto, e a ingestão frequente desta bebida de alto teor alcoólico, teria agravado a doença aumentando as alucinações. Foi durante uma destas crises que o pintor  cortou o lóbulo da sua orelha esquerda, chegando inclusive a auto retratar-se após a mutilação.

"Auto retrato com a orelha cortada"
Instituto Courtauld de Arte em Londres

Internado posteriormente num hospital e depois num asilo, não deixa de pintar. Na sua fase produtiva chega a pintar um quadro por dia, e devido aos seus problemas mentais agravados, passa a ser tratado pelo médico Dr. Paul Gachet. A aproximação entre eles rendeu-lhe uma das suas obras mais conhecidas: "O Retrato do Dr. Gachet". 

"O Retrato do Dr. Gachet" - Museu d' Orsay em Paris

Suspeita-se que a cor amarela em destaque nos seus quadros, teria sido um dos efeitos colaterais da medicação receitada. 
Em maio de 1890, aparentando estar recuperado, Van Gogh passa a viver a noroeste de Paris, onde pinta freneticamente. Mas em julho desse ano, uma nova crise leva-o a tentar o suicídio, dando um tiro na parte superior do abdómen. Ainda resiste dois dias e acaba por morrer no dia 29 de julho, com apenas 37 anos.
Por ter atentado contra a própria vida, perdeu o direito de ser enterrado nas dependências da igreja local. O seu caixão foi coberto de girassóis, a flor que ele mais amava. Aliás, a tela "Os Girassóis" é uma das obras-primas de Van Gogh.

"Girassóis" - Galeria Nacional em Londres

sábado, 28 de março de 2015

Na Primavera a leitura também floresce

Plantar uma Floresta - Luísa Ducla Soares


Imagem retirada do blog
http://palavrasdocanto.blogspot.pt/

Quem planta uma floresta
Planta uma festa.

Planta a música e os ninhos,
Faz saltar os coelhinhos.

Planta o verde vertical,
Verte o verde,
Vário verde vegetal.

Planta o perfume
Das seivas e flores,
Solta borboletas de todas as cores.

Planta abelhas, planta pinhões
E os piqueniques das excursões.

Planta a cama mais a mesa.
Planta o calor da lareira acesa.
Planta a folha de papel,
A girafa do carrocel.

Planta barcos para navegar,
E a floresta flutua no mar.
Planta carroças para rodar,
Muito a floresta vai transportar.
Planta bancos de avenida,
Descansa a floresta de tanta corrida.

Planta um pião
Na mão de uma criança:
A floresta ri, rodopia e avança.


Luísa Ducla Soares
A gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca
Lisboa, Teorema, 1990

quinta-feira, 26 de março de 2015

O lado negro do chocolate no DIA MUNDIAL DO CHOCOLATE

Neste DIA MUNDIAL DO CHOCOLATE, importa saber, não só como o chocolate é feito ou conhecer as virtudes do chocolate na nossa saúde, mas também conhecer o lado negro do mesmo. Saber que parte das três milhões de toneladas derivadas do cacau, consumidas anualmente em escala planetária, é produzida com recurso a trabalho infantil e tráfico de crianças de países como o Gana, Togo, Mali e Burkina Faso para a Costa do Marfim.




Este documentário "THE DARK SIDE OF CHOCOLATE" tem à frente o jornalista dinamarquês Miki Mistrati, decidido em investigar os rumores de que por trás da indústria chocolateira estava o trabalho de crianças em situação de escravidão.


terça-feira, 24 de março de 2015

A MORTE GANHOU O MESTRE! Lembrar HERBERTO HELDER, o poeta dos poetas

O escritor e poeta Helberto Helder deixou-nos hoje!
Era considerado o maior poeta português da segunda metade do século XX. O seu último livro "A morte sem mestre", foi publicado no ano passado, em Junho.



Distinguido em 1994 com o Prémio Pessoa, recusou recebê-lo. "Não digam a ninguém e deem o prémio a outro" , pediu ao júri.

Nasceu no Funchal em 23 de novembro de 1930 e era de ascendência judaica. Não gostava de conceder entrevistas, recusava-se a ser fotografado e não atribuía especial significado aos galardões.
O seu primeiro livro "Amor em visita", foi publicado em 1958. É dele este lindo poema, dedicado a ti, mulher Maria, Emília, quiça Julieta ou Ofélia.

O Amor em Visita

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura, não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.


Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz
sobre as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
a cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
                                             Herberto Helder, in 'O Amor em Visita'
... / ...
Nessa altura frequentava ele o grupo do Café Gelo, formado por Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Helder Macedo, João Vieira e António José Forte.

Em 2008  publica "A Faca não Corta o Fogo", um dos maiores acontecimentos literários. E retiro daqui:

alguém salgado porventura
te
toca
entre as omoplatas,
alguém algures sopra quente nos ouvidos,
e te apressa, enquanto corres
algumas braças acima
do chão fluido, leva-te a luz e subleva,
tão aturdidos dedos e sopros,
até ao recôndito,
alguma vez te tocaram nas têmporas e nos testículos, alto,
baixo,
com mais mão de sangue e abrasadura,
e te cruzaram nesse furor,
e criaram, com bafo
ardido, ásperos sais nos dedos, e te levaram,
a luz corrente lavrando o mundo,
cerrado e duro e doloroso, acaso
sabias
a que domínios e plenitudes idiomáticas
de íngremes ritmos, que buraco negro,
na labareda radioactiva,
bic cristal preta onde atrás raia às vezes
um pouco de urânio escrito
de "A Faca não Corta o Fogo" 


                           ... / ...
E tanto se poderia dizer deste grande mestre! E como amigo que foi e que permanecerá, deixo-vos com o poema lindíssimo sobre "Os Amigos", retirado de "Lugar" (1962).

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos  um lugar de silêncio.
De paixão.

                                                                                        De "Lugar"

24 de março - Importância de Koch no Dia Internacional de Combate à Tuberculose

Faz hoje, dia 24 de março, exactamente 133 anos que Robert KOCH descobriu o bacilo causador da tuberculose: Mycobacterium tuberculosis (MTB) ou tradicionalmente conhecido por Bacilo de Koch.


No século XIX, para além da grande incidência de tuberculose surgem igualmente grandes desenvolvimentos. A 24 de Março de 1882, Robert Koch (1843-1910), médico e microbiologista alemão descobriu o microorganismo responsável pela tuberculose. Desde então, esta data passou a ser assinalada como Dia Mundial da Tuberculose e Koch recebe, em 1905, o Prémio Nobel de Medicina pela sua descoberta.

Também com a descoberta dos Raios X por Roentgten (1845-1923), surgem grandes desenvolvimentos no diagnóstico e acompanhamento radiológico da doença. 
Até à década de 40, o tratamento da doença baseava-se no isolamento total dos doentes em sanatórios, com recurso ao repouso absoluto, exposição ao sol e alimentação saudável. Os medicamentos são à base de quinino, enxofre, cálcio e preparados de ouro e bismuto. A partir de 1940, começam a surgir os antibióticos e quimioterápicos que conduzem à cura da tuberculose nos anos posteriores: a estreptomicina é descoberta em 1944 e a isoniazida tem a sua eficácia comprovada laboratorialmente em 1945. Finalmente, nos anos 60 surge o esquema definitivo de tratamento da doença, com a associação de três antibióticos que curavam 95% dos doentes de tuberculose internados nos sanatórios. A evolução no tratamento da tuberculose foi positiva até aos anos 80, altura em que sofreu um retrocesso. O ressurgimento da doença, com o aumento dramático do número de casos de doença, ficou a dever-se ao surgimento de uma nova epidemia – o HIV/SIDA, bem como o empobrecimento das populações, os movimentos migratórios, a toxicodependência, entre outros. Perante a situação, a OMS declara a tuberculose como emergência mundial. Ela foi sem dúvida uma das doenças que mais matou na história.

O bacilo de Koch é transmitido nas gotículas eliminadas pela respiração, por espirros e pela tosse. Afecta principalmente os pulmões, mas também pode afectar órgãos como os ossos, os rins e as meninges.

O bacilo de Koch

No centro da imagem, os bastonetes roxos são bacilos de Koch
Robert Koch desenvolveu ainda os Postulados de Koch, um conjunto de medidas ou acções que deviam ser feitas para que um organismo seja considerado a causa  de uma doença. Com estes postulados conseguiu sistematizar a pesquisa e identificação de doenças provocadas por bactérias.

segunda-feira, 23 de março de 2015

A 22 de março de 1923, nascia MARCEL MARCEAU, MIMO MARCEAU ou Bip, o Palhaço.

"O MIMO é teatro profundo com uma grande carga de corporalidade, em que a máxima dificuldade passa por criar um mundo que não existe, por fazer visível o invisível." 
                                                                                                       Marcel Marceau



Actor e Mimo francês, nascido em Estrasburgo a 22 de março de 1923, no começo da Segunda Guerra Mundial, mudou-se para Limoges para escapar da perseguição nazi, onde se dedicou ao estudo das artes.

O seu pai, de origem judaica, não escapou à perseguição e foi deportado em 1944 para o terrível campo de extermínio de Auschwitz, onde foi assassinado.
O jovem Marcel, que mudou o seu apelido de Mangel para Marceau para ocultar as suas origens em tempos conturbados, envolveu-se na resistência contra a ocupação nazi.

Aluno de Etienne Decroux, pioneiro da mímica moderna, foi professor de arte dramática em Paris e ao terminar a guerra, ingressou na companhia de Madeleine Reanud e Jean Louis Barrault onde se destacou no papel de Arlequim.


Tomando como referência os grandes comediantes de cinema do mundo, como Charlie Chaplin - que ele imitava quando criança - e Keaton, em 1947, já com a sua própria companhia, cria o seu personagem "Bip"(o palhaço melancólico com uma flor no chapéu), que o acompanhou por toda a vida e que o tornou popular com o seu rosto pintado de branco, calças largas de palhaço, camisa de marinheiro e uma expressividade corporal frágil somente na aparência.

O "Charlie Chaplin da mímica" fez também duas notáveis incursões no cinema como actor, em "Barbarella" (1968) e com Mel Brooks em "La dernière folie"(1976).

Morreu aos 84 anos (22 de setembro de 2007), o mímico mais famoso do mundo que durante décadas emocionou multidões sem usar uma única palavra ( o mágico do silêncio).


Entre muitas frases suas, há uma que importa recordar:
"Não sou apenas um artista. Sou um progressista, um homem que quer a paz e luta pela iluminação do mundo"
                                                                                                  Marcel Marceau

sábado, 21 de março de 2015

21 de março - DIA MUNDIAL DA ÁRVORE E DA FLORESTA

Como nos encontramos no hemisfério norte, festejamos o Dia Mundial da Árvore a 21 de março, marcando assim o início da primavera. No hemisfério sul, este dia será festejado no dia 21 de setembro, início da primavera neste hemisfério.
O objectivo desta comemoração é sensibilizar a população para a importância da preservação das árvores, quer ao nível do equilíbrio ambiental e ecológico, como da própria qualidade de vida do cidadão.

Fica aqui "A maior flor do mundo" de José Saramago.

É uma magnífica história para crianças. 
Saramago inventa uma história sobre um menino que faz nascer a maior flor do mundo. Nesta narrativa o autor transforma-se em personagem e conta a história de um menino que mora na cidade e vai até ao fim do mundo para salvar uma flor que está quase a morrer.

Uma crítica ao crescimento desenfreado das cidades e à desflorestação da vida que nos rodeia.

... / ...

É tempo de recordar também Sophia de Mello Breyner Andresen no seu livro "A Árvore".

"Era uma vez – em tempos muito antigos, no arquipélago do Japão – uma árvore enorme que crescia numa ilha muito pequenina.
Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho.
Assim, o povo dessa ilha sentia-se feliz e orgulhoso por possuir uma árvore tão grande e tão bela: é que em nenhuma outra ilha do Japão, nem nas maiores, existia outra árvore igual. Até os viajantes que por ali passavam diziam que mesmo na Coreia e na China nunca tinham visto uma árvore tão alta, com a copa tão frondosa e bem formada.
E, nas tardes de Verão, as pessoas vinham sentar-se debaixo da larga sombra e admiravam a grossura rugosa e bela do tronco, maravilhavam-se com a leve frescura da sombra, o suspirar da brisa entre as folhagens perfumadas.
Assim foi durante várias gerações.(...)"
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A WWF (World Wide Fund for Nature) é uma organização não governamental internacional que actua nas áreas da conservação, investigação e recuperação ambiental, com sede na Suiça desde 1961. Este é um outdoor contra a desflorestação, pretendendo estabelecer uma analogia entre floresta e pulmão.

21 de março - DIA MUNDIAL DA POESIA

O Dia Mundial da Poesia comemora-se a 21 de março e foi criado na XXX Conferência Mundial da Unesco em 16 de novembro de 1999.
O propósito deste dia é promover a leitura, escrita, publicação e ensino da poesia através do mundo


O Poema Original

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos, quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
 que é gato de sete vozes

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

Ary dos Santos, in "Resumo"

Pier Toffoletti - Biography

Um poema

Não tenhas medo, ouve: 
É um poema
Um misto de oração e feitiço...
Sem qualquer compromisso, 
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz ...

Miguel Torga, Diário XIII

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Ó Poesia sonhei que fosses tudo
E eis-me na orla vã abandonada
Uma por uma as ondas sem defeito
Quebram o seu colo azul de espuma
E é como se um poema fosse nada
(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar Novo)

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Paul Gustave Fischer - A Good Book, 1905

Falar/ Dizer poesia
"Tenho para mim que ler poesia com a voz não pode ser nunca só conhecê-la e dá-la a conhecer.
Ler poesia é torná-la nossa, que a voz, tanto como os olhos, quer se queira quer não, é espelho da alma. Ler poesia é como representar, é inventar quem fala, é reinventar um poeta e recriar o momento de escrever. Por isso é importante escolher o que se lê, não ler qualquer coisa, amar o que se diz, decidir  que palavras vão passar a fazer parte de nós e serão daí em diante também nossa memória e nos irão ajudar também a escrever e a ler novas palavras, a estar com os outros"
Luís Miguel Cintra 

sexta-feira, 20 de março de 2015

A PRIMAVERA começa hoje às 22h45.

Nada melhor que esperar pela Primavera, lendo Alberto Caeiro.

"Soir de Printemps" de Gastin-Mozol

Quando Vier a Primavera
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


"La printemps" de Émile Vernon

Mas, muitos outros poetas escreveram sobre a Primavera. Veja-se, a propósito, Guerra Junqueiro.

A Primavera
Namorou-se uma princesa
Dum pajem loiro e gentil;
Chama-se ela - Natureza,
Chama-se o pajem - Abril.
A Primavera opulenta,
Rica de cantos e cores,
Palpita, anseia, rebenta
Em cataclismos de flores.
(...)
Tudo ri e brilha e canta
Neste divino esplendor:
O orvalho, o néctar da planta
O aroma, a língua da flor.
Enroscam-se aos troncos nus
As verdes cobras da hera.
Radiosos vinhos de luz
Cintilam pela atmosfera.
Entre os loureiros das matas,
Que crescem para os heróis,
Dá o luar serenatas
Com bandas de rouxinóis.
É a terra um paraíso,
E o céu profundo lampeja
Com o inefável sorriso
Da noiva ao sair da igreja



Vivaldi - Primavera (As quatro estações)

E na música, António Vivaldi faz a diferença com concertos para violino e orquestra "As quatro estações". Ao tocar "A Primavera", Vivaldi descreve o chegar desta estação com uma melodia doce, remetendo ao canto dos pássaros. Mas também há a tempestade, onde os raios e trovões cobrem o ar num manto negro. Apesar disto, sem se importar, ficam os passarinhos, retornando ao seu encanto sonoro. Aparecem gaitas camponesas, dançam as ninfas e os pastores enquanto a primavera surge a brilhar.