quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Recordando o poeta ANTÓNIO GEDEÃO (1906 / 1997)


A 19 de fevereiro de 1997, o professor de Ciências Físico-Químicas e investigador Rómulo de Carvalho, que como poeta escreveu sob o pseudónimo de António Gedeão, deixa-nos mais pobres com a sua morte. 
Porém, continuam vivos os seus poemas que são uma simbiose perfeita entre a ciência e a poesia, a vida e o sonho, a lucidez e a esperança.
Pedra Filosofal e Lágrima de Preta são dois dos seus mais célebres poemas.


A "Pedra Filosofal", musicada por Manuel Freire, tornou-se um hino à liberdade e ao sonho. 


Em 1972, José Niza compõe doze músicas com base em poemas de Gedeão e produz o álbum "Fala do Homem Nascido". Neste álbum podemos descobrir "Estrela da manhã", "Fala do homem nascido", "Desencontro", "Tempo de poesia"e "Poema da Auto-estrada", entre muitos outros.

Poema da Auto-estrada
Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina,
de impaciente nervura.
como guache lustroso,
amarelo de idantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta:
Vai na brasa, de lambreta.

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa e bem segura.

Com um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta,
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe Leonor
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta
Vai na brasa, de lambreta.

Poesias Completas



Podemos ainda destacar dois outros poemas: o "Poema para Galileu" (assinalando o quarto centenário do nascimento de Galileu Galilei) e o "Soneto" (a Luiz Vaz).

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