segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

28 ANOS DE SAUDADE (Juventude)

A sua infância reparte-se entre Aveiro, Angola, Moçambique, Belmonte e Coimbra, devido às sucessivas deslocações profissionais do pai.



Em África, a relação física com a natureza causou-lhe uma profunda ligação ao continente africano, que se reflectirá pela sua vida fora. As trovoadas de Angola, as florestas e os grandes rios atravessados em jangadas escondiam-lhe a realidade colonial.
"(...) a África era uma coisa imensa, uma natureza inacessível que não tinha fim, contactos com fenómenos da natureza extremamente prepotentes como eram as grandes trovoadas, os gafanhotos, florestas, travessias de rios em barcaças, etc., etc. Estive em Luanda onde creio que iniciei a 1ª classe."

Recorda ainda Moçambique (Lourenço Marques 1937 - 1938) ...
"Aos oito anos regresso a África. Agora é Moçambique, não é Angola. Pouco tempo ali estou mas é de novo o paraíso. Somos eu, o meu irmão e a minha irmã... Também nesse tempo vamos com a família à África do Sul e vemos feras em liberdade... Eu sonhava nunca mais abandonar aquela terra". 

E África deixa em algumas das suas canções, uma sonoridade africana e quem sabe, cheiro também! Ao escutarmos "Galinhas do mato", somos transportados para a terra dos embondeiros, dançando livremente como de pés nús perante a vida.


De Moçambique vem para Belmonte. Estamos em 1938 e ele com apenas 9 anos. Como ele dizia: "uma terra horrível".
"De Moçambique vim para Belmonte onde um tio meu era Presidente da Câmara, comandante da Legião!... Homem valsante; gostava muito de valsar e de dançar o tango (...). Uma terra horrível. Um período fechado. Privado de contactos. Eu não podia sequer dar-me com os meninos da vila. Fiz ali a 4ª classe. (...) o pior ano da minha vida.""Ouço noites seguidas daquele meu quarto as notícias captadas pelo meu tio que era de facto a ameaça germânica - 'Londres comme Cartago sera détruite!' "

E também guardou na memória o Professor Tavares. Esse homem...
“… que gostaria de ver porque era um indivíduo sério”; e os jogos populares (canicho e bilharda) em que não participava por ser “sobrinho do senhor doutor”.


Em 1940, vai para Coimbra, ao cuidado de uma tia paterna, a tia Avrilete, matriculando-se no liceu D. João III, onde começa a cantar. Tem na altura 11 anos.
Por volta de 1945, começa a cantar serenatas. 
"Naquela altura qualquer tipo que tivesse um bocado de voz, mesmo pouca ou nenhuma, era imediatamente agregado para aquele grupo de serenatas. Havia também um mecanismo muito interessante, não sei se vinha da burguesia ou da nobreza, através do qual um tipo convidava um amigo que sabia cantar quando estava interessado em alguma rapariga que se encontrava sob reserva em qualquer "lar""
Em Coimbra, passa pelas Repúblicas onde conheceu a amizade e a farra académica. 
"O liceu é a dois passos... (...). Há lá uma ladeira e ao cimo da ladeira era a casa da tia Avrilete, um segundo andar. O ambiente era muito conservador: mulheres de escapulário ao pescoço. Proibições... Por baixo vivia uma outra família e por baixo ainda era a mercearia do Sr. Santos".
"Quando havia trovoada a minha tia dizia o magnificat com voz de sibila, aliás, as três mulheres, (...) diziam todas as três o magnificat em três pontos diferentes da sala, cada uma no seu tom".
"(...) tanto ia aos 'Cágados' onde comia ovos à uma da manhã, como passava pelos 'Galifões' ou pelos 'Corsários das Ilhas'. Os 'Cágados' ficavam perto da minha casa, quando vivia no Beco da Carqueja. A parte de trás dava mesmo para o Quebra Costas e para o Gil, (...). Também conheci muita malta da 'Prá-quis-tão' e tive um convívio bastante estreito com os tipos do ´Palácio da Loucura'. De um modo geral convivi com a 'Ai-Ó-Linda' e dava-me muito com o Lobão dos 'Corsários das Ilhas', (...)"
Seduzido pela cidade, tem os primeiros contactos com clubes recreativos, joga futebol na Académica e acompanha a equipa um pouco por toda a parte.
Nas coletividades conhece "gajos populares", entre os quais Flávio Rodrigues, que admira como exímio tocador de guitarra. Inicia-se em serenatas e canta em "festarolas de aldeia".

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