segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

28 ANOS DE SAUDADE


"Havia uma sociedade de indivíduos que viviam na Alta ou na Baixa economicamente depauperados: barbeiros, merceeiros, profissões dependentes do estudante. Recordo-me que as criadas viviam num estado de fome permanente nas férias grandes e começavam a comer quando os estudantes regressavam. (...). Lembro-me do estatuto de estudante que era, apesar de tudo, compatível com uma certa compreensão humana da situação dessa gente. Esta visão sentimental do que eram as desigualdades sociais motivou uma certa transformação em mim. A visão poético-estudantil em que eu me considerava um herói de capa e batina, um cavaleiro andante, desapareceu ou foi desaparecendo com o tempo e à medida que fui vivendo numa situação económica extremamente difícil com os meus dois filhos no Beco da Carqueja".
                                                                                                          José Afonso


Em janeiro de 1953, nasce-lhe o primeiro filho João e um ano depois uma filha, Helena. Durante este período difícil estuda e trabalha para sustentar a família. Em 1963, conclui o curso na Faculdade de Letras de Coimbra.
De 1957 a julho de 1967, é professor em diversas escolas, nomeadamente em Mangualde, Lagos, Aljustrel, Faro, Alcobaça, Beira (Moçambique) e Setúbal. Enquanto isso, vai arranjando espaço para actuações diversas, nomeadamente em Paris e Genebra, e consegue ir editando alguns discos.
De 1960 a 1961 segue atentamente a crise estudantil.
Em 1963, realiza digressões pela Suiça, Alemanha e Suécia, integrado num grupo de fados e guitarras, na companhia de Adriano Correia de Oliveira, José Niza, Jorge Godinho, Durval Moreirinhas e ainda da fadista lisboeta Esmeralda Amoedo.


Upsala, Suécia - 1963

Em Maio de 1964, actua em Grândola e é aqui que se inspira para fazer a canção «Grândola, Vila Morena», que viria a ser no dia 25 de abril de 1974, a senha do Movimento das Forças Armadas para o derrube do regime ditatorial.
Em 1968, é expulso do ensino e dedica-se a dar explicações e a cantar com mais assiduidade na margem sul. Em 1969, põe-se ao lado do movimento sindicalista assim como nas acções dos estudantes de Coimbra contra o regime de Marcelo Caetano.
A partir daqui surgem diversos álbuns como: «Traz outro amigo também», «Cantigas de maio», «Eu vou ser como a toupeira».


Em abril de 1973, é preso pela PIDE e fica 20 dias em Caxias, até maio.
"A última vez que fui preso tinha ido esperar o meu pai ao aeroporto. Vim para casa, dormi mal e no dia seguinte bateram à porta. Estávamos em Abril de 1973. O meu filho Zé Manel foi abrir. O inspector apresentou-lhe o 'crachat' da polícia e ele voltou-se displicentemente para a sala a dizer 'oh pai é a prestimosa'. O tipo entrou, fizeram a vasculhação e levaram-me para Caxias."
                                                                                                           José Afonso

Na prisão escreve o poema «Era um redondo vocábulo». No natal publica o álbum «Venham mais cinco» com José Mário Branco.
A 29 de março de 1974, o Coliseu em Lisboa enche-se para ouvir José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, José Barata Moura, Fernando Tordo e outros, que terminam a sessão com "Grândola Vila Morena".
Os militares do MFA estão entre a assistência e escolhem "Grândola" para senha da revolução.
Um mês depois dá-se o 25 de abril.

"Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é o que fica. Quando as pessoas param há como que um pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político como no campo estético e cultural. E, por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e os alibis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta."
                                                                                                            José Afonso

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